quarta-feira, 27 de julho de 2011

Destinatário ausente


Querido você, a quem pertencem minhas palavras.

Quantas cartas já lhe escrevi, para depois guardá-las na caixinha debaixo da cama, sem mandá-las ao verdadeiro dono? Inúmeras. Vinte, talvez? Pouco importa. De nada serviriam, pois não sei se você as leria.
Onde está você, já que não ocupa o lugar a que pertence, que significa ao meu lado? Talvez você esteja bem melhor sem mim. Talvez eu não queira aceitar isso.
Só restam-me lembranças e idealizações suas. Retalhos de mim com memórias de você.
Você ainda se lembra? Você ainda se importa? Você se esqueceu?
Caso não se lembre, éramos tão próximos que podíamos sentir nossa conexão. Você costumava me entender - e tão bem - quando ninguém mais tentava. Costumava me fazer sorrir quando ninguém mais conseguia.
Como pôde se esquecer de nós? Se esqueceu das nossas risadas? Se esqueceu das nossas conversas? Se esqueceu das brincadeiras, dos segredos, dos planos, dos sorrisos? Se esqueceu de mim?
Sem você, continuo aqui, como um objeto inerte, inanimado, sem vida. Por mais que eu queira arrancar-lhe de dentro de mim, minha mente não obedece aos meus comandos. Sinto-me vulnerável. Mesmo que eu queira trancá-las, minhas portas ainda estão abertas para você, somente para você. E por mais que eu tente negar, ainda sobra-me uma esperança vã, que anseia por sua volta, que espera que meu orgulho finalmente perceba que é você o que me falta e que aguarda o dia em que você me tome nos braços e me leve daqui.
Mas meu caro destinatário, não se preocupe comigo. A saudade que sinto de você ocupa o espaço que sua ausência deixou.
Peço-lhe uma única coisa: volte o mais breve possível. Antes que tudo se perca, antes que o rumo desapareça, antes que seja tarde demais.
Então avise-me quando você decidir voltar para iludir-me um pouco mais, pois servirei-lhe meu coração em uma bandeja se estiver com fome, e oferecerei algumas de minhas lágrimas de saudade se estiver com sede.
A quem estou querendo enganar? Esta se tornará mais uma da minha coleção de cartas com minhas palavras incontidas, ocupando espaço dentro de uma caixinha desbotada debaixo da cama. Você nunca saberá.
Entretanto, isso não muda o fato de que estou inutilmente à sua espera.
Sinto sua falta.

Assinado,
Sua patética remetente.

10 comentários:

  1. Existe tanta intensidade em seu relato particular, se torna encantador. As palavras sobressaltam entre os seus dedos, se tornando frases e descrevendo cada desejo e dor.
    Parabéns, e um beijo enorme @lovlovemedo.

    ResponderExcluir
  2. Gostei muito do seu blog,resolvi ficar por aqui e me encanta com suas palavras amei seu espaço te sigo desde já te convido a visitar meu blog se gostar fique por lá bjinhos de boa tarde!

    http://julikotona.blogspot.com/

    ResponderExcluir
  3. Eu deveria dizer para você "queimar" essas "cartas" já que elas não mudariam muito, mas se elas forem bonitas como essa, seria um desperdício, então, não digo nada :) (Só que você não está só, acho)

    ResponderExcluir
  4. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  5. O problema é que gosto delas, gosto de lembrar, mesmo que isso me machuque. Gosto da dor da saudade e de tudo isso descrito no texto, Nathália. E obrigada pelo comentário, querida.

    ResponderExcluir
  6. Absolutamente avassalador! Daquelas cartas que lemos e relemos depois de anos, e entendemos o porque dessa servidão!

    simplesmente ótimo

    beijo, Artur

    ResponderExcluir
  7. Muito obrigada mesmo, Artur. Fico muito feliz por gostado. (:

    ResponderExcluir

Dê sua opinião.